27 julho, 2005

27.07

Hoje, aqui no corredor da morte, todos recebemos de SS uma carta. Há muito que ninguém recebia correspondência. A admiração foi pois muita e todos estranhamos: será uma carta bomba? Será que o Estado, na sua cívica limpeza democrática, tenta-nos com um suicídio colectivo, nestes tempos de todos os terrorismos? Felizmente que não. Falso alarme, provam-nos, tudo foi devidamente inspeccionado. Muito bem lá abrimos a carta, a uníssono, emocionados:

“Informa-se V.Exª de que nos meses abaixo indicado se verifica o não pagamento das contribuições devidas à SS.” Olhamo-nos incrédulos “ coitadinha!”, todos recebemos a mesma carta e as lágrimas jorram pelo nosso rosto “Assim, solicita-se que, no prazo de 10 dias a contar da data de recepção da presente notificação, proceda ao referido pagamento...mais se informa que a não regularização da referida situação, determina a cobrança coerciva, salvo se for invocado fundamento legal...”

Pulga, Tgv, Ota, Iva, Irs, Snuff, Graffity, Grafitti,..., enfim todos estamos de boca aberta de espanto: que pérola! Que bela peça de literatura! todos estamos de acordo: pensávamos que estávamos esquecidos da sociedade, mas não, é bom viver

Também concordamos, reunidos em plenário, que todos temos que saldar as dívidas à sociedade para que esta possa pagar ao Estado para que este continue corrupto e incompetente. Reunidos em plenário tentamos via net conseguir voos em conta para o Brasil e voltarmos quando passar a crise.

26 julho, 2005

25.07

Um silêncio obscuro deambula pelo corredor da morte:

“ Sabes que podes morrer nessa nascente
Penetra-me e conduz-me à segunda explosão
Há uma espécie de inferno aonde o céu
transfigura os meus braços nos teus braços

Arranha-me os ombros, explora
os meus lábios com sofreguidão. Intensifica
sobre a coroa fluida do meu centro
o mar da tua mão

e tange-me os pés com avidez e luto
para que nada me pertença ou te pertença.
Encontra-me e perde-me. Lança-me ao abismo

onde tudo é escuro e brilha inexorável
o gozo de morrer e de matar.
Com a minha morte vinga a que tiveres “

In “ A Construção de Niníve” de Amadeu Baptista, livro da semana, na Pulga (4 euros)

22 julho, 2005

22.07

Pulga aceitou desculpas. O sr. Vice-presidente da Câmara Municipal de V.N. Foz Coa, Gustavo Duarte falou. Viva o bom senso, os encontros de poesia, as pequenas editoras e o resto... a literatura. Pulga agradece a todos quanto se empenharam nesta causa.

As edições Aquário chegaram em força com cinco títulos de Silva Carvalho, o poeta porético: Caos Indelével Inefável (12,50 euros) Mediocridade ( 15 euros) As Estações (15 euros) A Experiência Americana ao Vivo (15 euros) O Rito Diário de um Hipocondríaco (15 euros) sãos os títulos à disposição na Pulga. Com o andar da carruagem voltaremos a eles.

18 julho, 2005

18.07

“ Por isso mesmo, estudaremos cuidadosamente dois dos seus aspectos principais, já que mais desesperados e definitivos: o ERRO, como processo de conhecimento e a IMPERFEIÇÃO, como método de captar o INSTINTO “ in “Processo ao pouco de realidade” de Simplicíssimus, livro da semana, 3 euros, atenção 3 euros, na Pulga.
Pulga acusa: A Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa de não querer efectuar o pagamento da n/. facturação referente a livros de pequenas editoras que nos foi pedido, para um encontro de poesia, em Dezembro pelo sr. Maximino, vai para 7 meses, à responsabilidade do vice-presidente sr. Gustavo Duarte. O sr. Éloi afirma que o sr. vereador da cultura manda dizer que a Câmara de Foz Côa nada tem a pagar e sim quem fez o pedido... confuso,a?, o nosso advogado já está a tratar do assunto, mas daqui apelamos ao bom senso do sr. Presidente da Câmara para que cumpra com as suas responsabilidades e efectue o respectivo pagamento; e também apelamos à navegação para o envio de e-mails www. Cm.fozcoa. pt ao sr. Presidente em nome da honestidade intelectual. Pulga agradece.

Na próxima quarta-feira, dia 20, no Púcaros bar, será lançado, à noite, pela voz de Isaque o livro de Virgílio Liquito “Malgas de Peçonha”, há que aparecer.

O Anjo Snuff
instalação
de A. Dasilva O.

“Se Snuff é considerado uma perversão extrema não deixa de ser produto da mesma natureza que criou à séculos na Europa outros espectáculos de morte, como por exemplo os autos de fé, as execuções no pelourinho ou as touradas, herdeiros por sua vez de tradições sangrentas ainda mais antigas.” Mário Augusto

de 15 de Julho a 15 de Setembro, livraria Pulga, rua Júlio Dinis, 752, lj 70, Parque Itália, Porto

12 julho, 2005

12.07

Estão todos a fazer contas à vida, enquanto a morte está a banhos na grande urbe. Banhos de multidão e sangue. De volta ao corredor da morte o tédio é de cortar à faca. Deus continua no seu voto de silêncio. Alcoviteira lambe Animal como se este fosse uma grande ferida. Grafitty e Graffiti esgrimem argumentos sobre os recentes atentados e choques de civilização entre abundantes raciocínios selvagens e outros coitos interrompidos pelo desenrolar dos acontecimentos que bêbedos de chamas, abrem para a necessidade de domesticar a privacidade e reduzir temporariamente a liberdade individual para melhor exercer a cidadania. A democracia está em perigo. Os partidos tentam transformá-la num condomínio fechado. “E aqui começam as dificuldades do lado da prática. Se toda a prática (trabalho, política ou ciência – não há aqui diferença de plano, todas se desenvolvendo segundo o mesmo modelo do « modo de produção») está ancorada nas suas condições históricas concretas dadas, como subtrair a produção científica à influência da ideologia que, no entanto, presumivelmente teria sido já relegada para uma região anterior ao corte? E a política? Quem detém os meios de produção (teóricos) das transformações sociais? O comité central do partido? Com todos os seus seguidores e adversários por igual mergulhados no pântano da ideologia” in “ O Estranho caso da morte de Karl Marx” de Ângelo Novo, livro da semana, na Pulga, a 5 euros “ Os artigos e ensaios que fazem parte deste volume têm como traço de união o facto de se situarem todos dentro de um esforço de divulgação e renovamento do pensamento marxista...”

06 julho, 2005

6.07

Aviso à navegação: Pulga, amanhã, dia 7, estará analogicamente fechada, em viagem de negócios, dia 8 voltará ao horário normal. Pedimos desculpa pelo incómodo.

04 julho, 2005

4.07

Do outro lado do atlântico comemora-se a razão de ser. A terra é prometida num sonho fastfood democrático, num western onde o bem e o mal pós-moderno se dobram e desdobram, como carne para canhão, em acção. As imagens como refúgio e excesso da melhor defesa: o ataque. O choque tecnológico da lavagem ao cérebro neobarroco da opinião pública.

Por cá resta-nos pensar o excesso. Pensar o Excesso, de Pedro Parcerias, é o livro da semana (5 euros): “O pensar do excesso, enquanto pensamento do excesso por si mesmo, é o pensar que se dirige à totalidade do ente a partir da sua intimidade, ou seja, a partir da sua continuidade. Porque é dirigido pelo ente enquanto ente, o pensar que é exigido pelo excesso insere-se na tradição e na história da metafísica.”

Pulga foi à estação dos correios, ctt, despachar uma encomenda de livros. Tira a senha e espera pacientemente pela sua vez. Chega o senhor candidato, ex-governador civil, à civil, e deita um olhar de reconhecimento e com um sorriso de figura pública: então ninguém me reconhece nesta estação suburbana do grande Porto? Lá foi tirar a sua senha e, mais uma vez se expõe com sinais de quem está com pressa. Subserviente o chefe da estação corre para o senhor candidato e concede-lhe um tratamento de excepção. Pulga chegando a sua vez, abre a boca irritada por uma encomenda de livros demorar até sete dias, via normal, para chegar ao seu destino, quando como livros devia ser entregue no dia seguinte como está estipulado, e para tal os editores dão ao estado 12 ex. de cada livro editado, por dá aquela palha. Não senhor, se quiser tem que ser assim e paga uma fortuna e mesmo assim não garantimos nada, se quiser pode reclamar, mal sabendo o ingénuo empregado que quem se magoa é sempre ele e ou um dos seus com aconteceu frequentemente, já que os seus superiores não assumem as responsabilidades, a culpa é do ignorante do cliente e do improdutivo empregado. Pelo meio, este tenta despachar tralha benfiquista e outras tralhas que os ctt mais parecem lojas chinesas, e livros, sim também vendem livros, daqueles que se vendem aos milhares, percebem?, e os aterros sanitários deles estão cheios. E o sr candidato? Lá foi, depois de engolir uma dúzia de indirectas que Pulga despejou no infeliz empregado, que não percebeu nada e apenas se lamentou de talvez lhe ser impossível, hoje, de conseguir obter os objectivos. Amanhã se verá se a encomenda chegou, que numa ida lá por pouco mais ficaria. Sr. Moreira para a próxima leve a marcha assinalada para ter um tratamento de excepção ( pode ser daquelas sirenes da Psp, assim, colocada na cabeça), faça-nos esse favor democrático. Srs Ctt demitam-se ou privatizem-se duma vez e não insultem a lei maior do país.

01 julho, 2005

1.07

Um minuto de silêncio por Emílio Guerreiro. Que a Democracia não descanse em paz..

Novo mês, novo livro a cinquenta por cento. Durante o mês de Julho, o livro do mês é: O Livro Mau, de A.Dasilva O., 5 euros.

“ Toda a criança arrasta dentro de si um adulto. Uma página em branco cheia de sangue e de bactérias em autodestruição.
E o melhor da literatura são as crianças.

...

Deserto. Flores. As bonecas espalhadas pela areia, que voava, da direcção norte-sul. Batia-lhe no corpo. Furava a pele com uma agulha o Urso. Ia matar todos. Sem dor. Acordariam outros. O mundo seria melhor. Por vezes pensava que estava a sonhar. Ela dizia. A pensar. Gostava da palavra pensar. Aqui nasceu o verbo. Foi o vovô. Era livre pensador. Tinha escrito muito. Mas um dia queimou tudo. Ela ajudou. Só ela e ele. Estava nevoeiro no jardim. Por vezes tudo era tão claro que pensava. Assim para depois dos olhos. Tinha um galo na cabeça que não a deixava pensar. Uma bola de carne onde se escondia esse grão de areia. Pensar. Gostava de olhar para uma flor, com tal intensidade que ela perdia a cor. Fechava-se. Ela não conseguia mexer os objectos.

...

... tentara suicidar-se. Estava ali deitada. Parecia uma estrela do mar. Não sabia se estava a pensar, se a sonhar. Tentava mexer-se. Estava paralisada. Foi de urgência para o útero. Abriu os olhos para dentro e sentiu tudo muito claro.”

Um livro de Verão. Nitidamente. Para quem gosta de fazer férias na noite. Narra o testemunho de uma criança que foi vítima de violência doméstica. Foi agredida por um livro. Este. E ficou paraplégica. Também sonâmbula e, neste estado, percorre a noite, a literatura com as suas bonecas, peluches e antepassados em acção e leitura de tirar a respiração a este ambiente de cortar à faca.



Acaba de chegar a notícia de que livraria gerida portugueses em Paris de nome Lusophone está a praticar censura ao nosso título “Putas à moda do Porto”. Fabuloso!