15 maio, 2005
10.05
Logo vou prestar declarações. Peço desculpa mas não vos posso adiantar nada, dado que estou ao abrigo do segredo de justiça. É bom voltar aos tempos de infância e a todos os seus segredos de amor máximo. E eu acredito na justiça e na sua lentidão. No entanto “O estranho caso da morte de Karl Marx” tem que ter uma explicação e os verdadeiros culpados, castigados. A cadeia foi feita para os cães que dentro de nós ladram.
11.05
Pergunta o culpado:- o estado de coisas literário parece-nos quase tão estranho como a idade da pedra? Responde o inocente:- malditas situações, citações. Porque continua a ser válido a nossa indiferença por um original esvaziado de sentido e esquecido, continua a engendrar um certo sublime. Mesmo sabendo, raciocina culpado, que só nos restam quarenta e cinco anos, segundo vozes científicas e credíveis? O inocente sorri:- mas a humanidade está morta, por assassinada, há sessenta anos! Qual é o pânico? Por estranho que pareça, Deus continua vivo e morde. O culpado irrita-se:- Aqui quem faz perguntas sou eu, certo? Voltando ao seu “relatório sobre a construção de citações” O Inocente pede desculpa por interromper: mas eu ainda não escrevi esse relatório? O culpado:- eu sei, foi Kafka! Vós os falsos amigos do povo, não fazem outra coisa senão cuspir na nossa inteligência. Mas fui treinado para estas situações. Inocente riposta: mas eu não sou Guy Debord. Está morto. Pois, pois, pois estamos todos mortos, soletra culpado com um sorriso amarelo, no entanto procriamos...
12.05
Acordo, aonde é que eu estou? Claro, adormeci no meu posto de trabalho. Passei a noite a ser interrogado pela auto-censura. Logo hoje que tenho que elaborar as datas de lançamento das novidades Mortas. 5 sábados, 5 livros, pelas 17h. O primeiro será no dia 28 de Maio, Rui Lage e o seu livro “ Não há mais que nascer e morrer”. Segue-se o Bernardino Guimarães e o seu “ Ambiente: o falso consenso”, no dia 4 de Junho. Dia 11 de Junho vamos estar todos na Casa da Animação com Ivar Corceiro e o seu “ Numa avenida de merda”. Mais pormenores é visitarem o Bagaço sítio. Virgílio Liquito, é o autor que se segue com o seu “ Malgas de Peçonha” no dia 18. Finalmente a fechar o tsunnamy, marmorto, literário, A. Sarmento Manso e o seu “ Representações sobre o desejo” a 25 de Junho, a abrir o verão. E nesse mar morto Pulga não dormirá. Uf, nem deixará de beber a sua sangria. “Não há tusa / para tanta musa!” Fernando Grade, acaba de chegar a bumerangue 5, revista de poesia, sediada em Guimarães, e digitalmente em bumeranguepoesiaarrobahotmail.com
13.05
Andamos todos a monte, fora da graça de Deus e com o Diabo no corpo. Animal uivou toda a noite. Alcoviteira lavou-o com sal. Cebola leu fragmentos da “Mãe Canibal” de Gilberto de Lascariz. Deus trabalhou na sua voz que deverá estar pronta, o número dois, na Pulga, durante o próximo mês.
12 maio, 2005
Os dias da Pulga, um diário. Corredor da morte. Cela 70
6.05 As “representações sobre o desejo”, “Não há mais nascer que Morrer” e “Numa avenida de merda” – os mais recentes livros que as Edições Mortas estão a lançar – anseiam pela chegada das “Malgas de peçonha” e “Ambiente: O falso consenso” que, asseguram, mais uma semana e estarão entre nós. Entretanto chegam mais dois números da revista Bíblia, assim como “ o pin da Bíblia” uma selecção/antologia de trabalhos escritos e publicados até ao número 17 da Bíblia e o debate surge com a recente Volte Face, primeiro número e depois de uma troca de olhos, em que umas e outras se medem e alguns piropos, o debate começa como sempre pelo tempo e a necessidade de resolver os seus, nossos problemas: Já. Mais uma vez não há tempo a perder. E abre-se todo um leque de opiniões, frases feitas, pequenos delírios e cada página tenta definir o seu voto: ou faz parte do problema ou da solução, quase todas optam teoricamente pelo problema. É mais divertido e muito amigo do seu amigo. Há que saber definir e onde se esconde. O inimigo somos nós. Enfim o debate está interessante mas tenho que satisfazer uma necessidade, quer dizer fazer aquilo que ninguém pode fazer por mim. A revista Nada olha para mim, cínica. Diógenes tem uma necessidade urgente de um café. Fecho-os nesse texto aberto. Cá fora o Real passeia o cão e quando necessário arruma uns carros para mais uma dose. E quando me vê começa a declamar Mário de Sá-Carneiro “ quando eu morrer, batam em latas” e um cigarro pode ser? Sacana! Ainda não fiz um cêntimo. Ele desdenta um sorriso. Dinheiro para quê, se ela não me dá bola! É do vírus. A cidade passa as noites a vomitar poesia por todos os poros e os dias a ingerir anti-psicóticos e depressivos. Volto ao local do crime e as miúdas estavam à beira de um ataque de nervos.
Os dias da Pulga, um diário. Corredor da morte. Cela 70.
5.05 Estou feliz aqui, grita de dez em dez minutos o desconhecido que está na solitária: caixa que mudou o mundo. O meu outro vizinho, o Cebola, que me lembrou Pierre Emmanuel: “ Analisar intelectualmente um símbolo, é descascar uma cebola à procura da cebola.” recebe os fantasmas a quem lê as mãos, os pensamentos e todo um bruto naipe de cartas. Possuído – já consegue meter a mão esquerda pelo anus dentro, devido não a necessidades sexuais segundo as palavras dele, mas para sacar os cagalhões – possuído é o melhor dizeur poético da nossa língua que actualmente é a quarta mais ferrada do mundo. Mais tarde falarei da Alcoviteira, o hermafrodita; do Animal. Todas as outras celas estão ocupadas por Deus.
Intenções
Fazemos, traficamos e desfazemos as técnicas de comunicação de massas e o seu processo revolucionário. Desfazemos, traficamos e fazemos a escrita criativa, automática e sniper; dramas do caixote do lixo e as suas acções e adventos do objecto, profundo por absoluto, subjectivo da dor e do seu manifesto desenvolvimento e modernização. Traficámos e traficamos a nossa época e construímos e destruímos o seu tecido esquizofrénico, os seus conflitos e contradições. Traficamos, dobramos e desfazemos princípios, os meios e fins, todos. Dobramos, traficamos o psíquico, do estético e do subterrâneo desfazer, desfazer e fazer pactos de sangue com os campos da emancipação literária.
Última morada
Pulga é o quarto escuro da edição, publicação e distribuição sediada no Parque Itália, 1º andar, lj. 70 – Rua Júlio Dinis, 752. Boavista. Porto. Aberto de Segunda a Sábado das 15h às 19horas.
conceito
Pulga é uma livraria do tamanho de um livro. E acima de tudo o espaço analógico das Edições Mortas e de outras Editoras de pequeno formato e tiragem: Black Sun Editores, Estratégias Criativas, Farândola, Corpos, Edições do Buraco, Peregrinação, entre outras edições de autor e revistas literárias: Última Geração, Biblia, Nada, Peregrinação, Águas Furtadas, Volte Face, entre outras, e a Voz de Deus.
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