24 maio, 2005

23.05

“ Bastardos de Deus” de Humberto R. é o livro da semana. 5 euros. Só na Pulga. Fragmentos: “ O livro da minha vida começava a inquietar-me. Comecei por reduzir as páginas que anteriormente tinha imaginado. Por exemplo eliminar os pormenores mais íntimos para não dar alimento à multidão. Depois fui eliminando personagens. Acabei com capítulos inteiros. Quando fiquei com o miolo fui lendo e relendo, rabiscando, rescrevendo parágrafos sobre parágrafos. Regressei à primeira linha. Rasurei e depois de várias tentativas acabei por a eliminar... foi quando desisti de escrever o livro da minha vida”

20.05

Pulga foi a Aveiro ao lançamento, no Clandestino bar, de “ Numa avenida de merda” de Ivar Corceiro. Foi bom ouvir a Carolina a dobrar e a desdobrar algumas das passagens do livro. Não, não estava a contar uma história. Apenas talhava a noite, fazendo do verbo carne.

19 maio, 2005

18.05

Pulga abre com a chegada do eterno feminino e o seu espelho. Isabel Duarte distribui o seu “ Espelho” livro de poemas. Numa edição Amores Perfeitos. Uma editora que explora, segundo testemunhos, a ingenuidade de plantar uma árvore, fazer um filho e publicar um livro como sentido e estado poético. Morte, pois, ao estado poético e a todos os seus negreiros.
Pulga fecha com a Europa, esse imenso Portugal e toda a sua constituição esquizofrénica. Referendo: uma tripla. Nim, propõem Cebola na sua extrema indiferença. A lição de anatomia enche-nos de tédio pós-moderno. Europa o estado impossível? Ou os estados unidos do improvável? Ocidente está com gases e tenta a todo custo escrever direito com linhas tortas. Pergunta-me se lhe publico o livro: Guerra das Estrelas. Paternalista aconselho-o a enviá-lo à Amores Perfeitos. O eterno feminino cora. Europa arrota a sardinhas enlatadas e a farturas. Almoçou com o Sr de Matosinhos.

17.05

Pulga está cheia de energia. Positiva. Chegaram mais dois novos títulos das Mortas: “ Malgas de Peçonha” de Virgílio Liquito e “ Ambiente: o falso consenso” de Bernardino Guimarães. Negativa. Figo regressa à selecção em mais um triunfo do carreirismo. A cereja em cima do bolo da paz podre.

17 maio, 2005

16.05

Cospe aqui. Graffiti cuspiu nas paredes da urbe mais uns alvos.

14.05

Chove. Encontro uma lágrima. Os corcodilos saem dos stands com os topo de gama, à experiência, e esperam que as suas oxigenadas acabem de fritar a celulite. Depois de mais uma dose de amor fati, fado e muito futebol com very lights emoções. No banco de Portugal o tio patinhas faz contas e mais contas e procura uma saída para o buraco de ozono das contas públicas. Chove. O Estado quanto mais deve mais dorme. Concentro-me na promoção da próxima semana. Hiv Speedball, crónica tóxico-alucinada de um sero positivo: 5 euros. Só na Pulga. Carlos Carrilhas narra à catanada toda uma masturbação literária o vírus que lhe navega no sangue durante 96 págs. Feias, porcas e más. Sem concessões Speedball desenrola o fio, de prata, da navalha desde que Hiv o possuiu: “ Meses mais tarde, tive a minha experiência homossexual, no aeroporto internacional de Lisboa. Sem que disse tivesse consciência, tinha nascido em mim, o Speedball. Tudo indicava que eu ia crescer, uma pessoa encantadora.” Chove. A seca é extrema.

15 maio, 2005

7.05

Tudo não passa de uma questão de audiências, de tiragens. Numa entrevista dada a um semanário, Criativo admite que errou na construção das personagens. É o velho problema das sub-empreitadas e o patético estudo de mercado da indústria. A prostituição literária tem os seus lúcidos caprichos. Um outdor publicita: é bom estar sujo. É um detergente. A lavagem ao cérebro humaniza-se através da multidão solitária das novas tecnologias. Entra Carlos Costa com o seu livro “Beijando a lua/acordo a madrugada” segundo título, em edição de autor. O Gato de José Carlos Martins ronrona, preguiçoso e afasta-se um pouco para dar lugar à novidade. Pulga promete uma leitura atenta. Olho para a pulseira electrónica. Amanhã vou passar o dia com a Liberdade.

9.05

Liberdade está obesa. A culpa é da net e dos dvd. Foi bom passar-lhe o corredor a pano. Mãos que matam. Só as tuas. Disse. Deve ser dos calos. Desde pequeno que adoro fazer a depilação. Ainda tenho as bonecas. As ossadas de um paraíso perdido. Recordo o sorriso de Liberdade: não tens poesia nenhuma, disse, caprichosa.

10.05

Logo vou prestar declarações. Peço desculpa mas não vos posso adiantar nada, dado que estou ao abrigo do segredo de justiça. É bom voltar aos tempos de infância e a todos os seus segredos de amor máximo. E eu acredito na justiça e na sua lentidão. No entanto “O estranho caso da morte de Karl Marx” tem que ter uma explicação e os verdadeiros culpados, castigados. A cadeia foi feita para os cães que dentro de nós ladram.

11.05

Pergunta o culpado:- o estado de coisas literário parece-nos quase tão estranho como a idade da pedra? Responde o inocente:- malditas situações, citações. Porque continua a ser válido a nossa indiferença por um original esvaziado de sentido e esquecido, continua a engendrar um certo sublime. Mesmo sabendo, raciocina culpado, que só nos restam quarenta e cinco anos, segundo vozes científicas e credíveis? O inocente sorri:- mas a humanidade está morta, por assassinada, há sessenta anos! Qual é o pânico? Por estranho que pareça, Deus continua vivo e morde. O culpado irrita-se:- Aqui quem faz perguntas sou eu, certo? Voltando ao seu “relatório sobre a construção de citações” O Inocente pede desculpa por interromper: mas eu ainda não escrevi esse relatório? O culpado:- eu sei, foi Kafka! Vós os falsos amigos do povo, não fazem outra coisa senão cuspir na nossa inteligência. Mas fui treinado para estas situações. Inocente riposta: mas eu não sou Guy Debord. Está morto. Pois, pois, pois estamos todos mortos, soletra culpado com um sorriso amarelo, no entanto procriamos...

12.05

Acordo, aonde é que eu estou? Claro, adormeci no meu posto de trabalho. Passei a noite a ser interrogado pela auto-censura. Logo hoje que tenho que elaborar as datas de lançamento das novidades Mortas. 5 sábados, 5 livros, pelas 17h. O primeiro será no dia 28 de Maio, Rui Lage e o seu livro “ Não há mais que nascer e morrer”. Segue-se o Bernardino Guimarães e o seu “ Ambiente: o falso consenso”, no dia 4 de Junho. Dia 11 de Junho vamos estar todos na Casa da Animação com Ivar Corceiro e o seu “ Numa avenida de merda”. Mais pormenores é visitarem o Bagaço sítio. Virgílio Liquito, é o autor que se segue com o seu “ Malgas de Peçonha” no dia 18. Finalmente a fechar o tsunnamy, marmorto, literário, A. Sarmento Manso e o seu “ Representações sobre o desejo” a 25 de Junho, a abrir o verão. E nesse mar morto Pulga não dormirá. Uf, nem deixará de beber a sua sangria. “Não há tusa / para tanta musa!” Fernando Grade, acaba de chegar a bumerangue 5, revista de poesia, sediada em Guimarães, e digitalmente em bumeranguepoesiaarrobahotmail.com

13.05

Andamos todos a monte, fora da graça de Deus e com o Diabo no corpo. Animal uivou toda a noite. Alcoviteira lavou-o com sal. Cebola leu fragmentos da “Mãe Canibal” de Gilberto de Lascariz. Deus trabalhou na sua voz que deverá estar pronta, o número dois, na Pulga, durante o próximo mês.

12 maio, 2005

Os dias da Pulga, um diário. Corredor da morte. Cela 70

6.05 As “representações sobre o desejo”, “Não há mais nascer que Morrer” e “Numa avenida de merda” – os mais recentes livros que as Edições Mortas estão a lançar – anseiam pela chegada das “Malgas de peçonha” e “Ambiente: O falso consenso” que, asseguram, mais uma semana e estarão entre nós. Entretanto chegam mais dois números da revista Bíblia, assim como “ o pin da Bíblia” uma selecção/antologia de trabalhos escritos e publicados até ao número 17 da Bíblia e o debate surge com a recente Volte Face, primeiro número e depois de uma troca de olhos, em que umas e outras se medem e alguns piropos, o debate começa como sempre pelo tempo e a necessidade de resolver os seus, nossos problemas: Já. Mais uma vez não há tempo a perder. E abre-se todo um leque de opiniões, frases feitas, pequenos delírios e cada página tenta definir o seu voto: ou faz parte do problema ou da solução, quase todas optam teoricamente pelo problema. É mais divertido e muito amigo do seu amigo. Há que saber definir e onde se esconde. O inimigo somos nós. Enfim o debate está interessante mas tenho que satisfazer uma necessidade, quer dizer fazer aquilo que ninguém pode fazer por mim. A revista Nada olha para mim, cínica. Diógenes tem uma necessidade urgente de um café. Fecho-os nesse texto aberto. Cá fora o Real passeia o cão e quando necessário arruma uns carros para mais uma dose. E quando me vê começa a declamar Mário de Sá-Carneiro “ quando eu morrer, batam em latas” e um cigarro pode ser? Sacana! Ainda não fiz um cêntimo. Ele desdenta um sorriso. Dinheiro para quê, se ela não me dá bola! É do vírus. A cidade passa as noites a vomitar poesia por todos os poros e os dias a ingerir anti-psicóticos e depressivos. Volto ao local do crime e as miúdas estavam à beira de um ataque de nervos.

Os dias da Pulga, um diário. Corredor da morte. Cela 70.

5.05 Estou feliz aqui, grita de dez em dez minutos o desconhecido que está na solitária: caixa que mudou o mundo. O meu outro vizinho, o Cebola, que me lembrou Pierre Emmanuel: “ Analisar intelectualmente um símbolo, é descascar uma cebola à procura da cebola.” recebe os fantasmas a quem lê as mãos, os pensamentos e todo um bruto naipe de cartas. Possuído – já consegue meter a mão esquerda pelo anus dentro, devido não a necessidades sexuais segundo as palavras dele, mas para sacar os cagalhões – possuído é o melhor dizeur poético da nossa língua que actualmente é a quarta mais ferrada do mundo. Mais tarde falarei da Alcoviteira, o hermafrodita; do Animal. Todas as outras celas estão ocupadas por Deus.

Intenções

Fazemos, traficamos e desfazemos as técnicas de comunicação de massas e o seu processo revolucionário. Desfazemos, traficamos e fazemos a escrita criativa, automática e sniper; dramas do caixote do lixo e as suas acções e adventos do objecto, profundo por absoluto, subjectivo da dor e do seu manifesto desenvolvimento e modernização. Traficámos e traficamos a nossa época e construímos e destruímos o seu tecido esquizofrénico, os seus conflitos e contradições. Traficamos, dobramos e desfazemos princípios, os meios e fins, todos. Dobramos, traficamos o psíquico, do estético e do subterrâneo desfazer, desfazer e fazer pactos de sangue com os campos da emancipação literária.

Última morada

Pulga é o quarto escuro da edição, publicação e distribuição sediada no Parque Itália, 1º andar, lj. 70 – Rua Júlio Dinis, 752. Boavista. Porto. Aberto de Segunda a Sábado das 15h às 19horas.

conceito

Pulga é uma livraria do tamanho de um livro. E acima de tudo o espaço analógico das Edições Mortas e de outras Editoras de pequeno formato e tiragem: Black Sun Editores, Estratégias Criativas, Farândola, Corpos, Edições do Buraco, Peregrinação, entre outras edições de autor e revistas literárias: Última Geração, Biblia, Nada, Peregrinação, Águas Furtadas, Volte Face, entre outras, e a Voz de Deus.