24 fevereiro, 2012

CÁ ESTOU EU À SOMBRA NESTE INVERNO PRIMAVERIL, PIOLHO 8


«Os moradores ligam muitas vezes uns para os outros a perguntar coisas. A perguntar      onde está ... Está do outro lado sentado no Piolho.» Rui Costa




Ana Ulisses(ilustrações), António Ramos Rosa, Ricardo Álvaro, Alexandra Antunes, Catarina Ulisses, José Luís Bértolo, Luís Serra, Miguel Sá Marques, Pedro Águas, Marta Peixoto, Oliveira Martins Roxo, Ricardo Marques, José Guardado Moreira, Raul Simões Pinto, Manuel Filipe, Pedro Calcoen, Sylvia Beirute, Cristina Aguiar, Sandra Filipe , rosa azevedo, Luís Pedroso, Rui Almeida, Luís Ferreira, José Emílio-Nelson, António Salvador, Teixeira Moita, Hugo Pinto Santos, A. Dasilva O.,Pedro S. Martins, António S. Oliveira e 
John Berryman



fazem mais ou menos por esta desordem este
número

o oitavo fevereiro 2012
Coordenado por Sílvia C. Silva, Ricardo Álvaro, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

15 fevereiro, 2012

Sexta em Braga "Pelas 21h30, o Cineclube Aurélio da Paz dos Reis , também na Casa do Professor, no ciclo de homenagem a Edgar Pêra: dois filmes sobre e com Alberto Pimenta, eis a Carta de Sala



José Alberto Resende de Figueiredo Pimenta, cidadão nacional nº 727697, natural do Porto, soldado sem instrução incorporado na reserva territorial, licenciado em filologia alemã pela universidade de Coimbra, esteve exposto, no dia 31 de Julho de 1977, entre as 16 e as 18 horas, numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico de Lisboa.
Nunca mais parou de ser perseguido pelo filho da puta do Homo Sapiens como me confessou numa entrevista para a revista Última Geração 4/5 maio/Junho de 1987 «Acho que ninguém quer morrer sozinho. Ser morto pode dar por instantes a ilusão da imortalidade. Os heróis correm atrás disso duma maneira, os artistas doutra. Cada herói e cada artista cria actos e palavras para todos os gostos, cria modelos. Estes modelos são uma doença incurável, um autêntico cancro do cérebro. A maioria dos artistas não faz mais que fomentar cancros do cérebro. Eu inclino-me mais para o género SIDA, acho mais catita «limpar» as defesas do parceiro que engordá-lo com tumores. A maioria da arte que se faz hoje é um tumor» e Alberto Pimenta tem cumprido essa Epopeida poética, em caixa alta, «porque é bom de ver que se trata: o mundo transferiu para o écran o que costumava mostrar cifrado num livro, letra a letra. Foi uma conquista dos analfabetos, e ainda bem» ele também conquistou e conquista jogando com as armas (defesas?) do adversário «a minha cara incomoda tanto filho da puta, que só isso já é um regalo» umA Divina Multi(co)media, &Etc, 1991, bêbada de Metamorfoses do Video, José Ribeiro editor, 1986 o que ao longo do tempo Alberto Pimenta tem corroído com magia as máscaras e os rostos do logos e toda a sua arte de matar: «Mas mais e melhor ainda mata o museu, e a biblioteca em certos casos. As obras estão vigiadas como prisioneiros. Só podem visitar-se sob tutela e a certas horas e dias.» in  A Magia que Tira os Pecados do Mundo, 1995, Edições Cotovia.
 E aqui se prova e se comprova: uma vida inteira a bater no mesmo teclado «Essa é a magia, guardada em 22 letras e seus traços de união» do eterno retorno à sua terra/jaula/livro entre vómitos e náuseas e suores de quem não sai do sua catártica e ética tarefa «Eu, Alberto Pimenta, nasci cerca de 750 anos depois de Alberto Magno, o qual conhecia 4 variedades de rosas (mais duas que eu), e ainda outras magias apreciáveis, que deixou registadas no Grande e no Pequeno Alberto. E algum que fosse só Alberto, sem ser grande nem pequeno, não havia? Parece impossível, mas a história não deixa: todos hão-de ser uma daquelas duas coisas. Essa foi a grande descoberta da minha vida, foi como a descoberta de Copérnico: quem dá as dimensões é a História, e a plebe erudita tira por aí as medidas para fazer os fatos. Hoje vou tirar eu as medidas, com outras dimensões, se V.Exas não se importam.»
 Moral da História: dos Poetas não reza a História.
É nesse e esse o inferno que Edgar Pêra narra, escreve e disseca Alberto Pimenta segundo as suas próprias palavras.
Foi nas Conferências do Inferno, segunda edição, 1994, Última Geração 22,23 e 24, que se encontraram e que vieram a dar origem, em encontros futuros, a estes dois filmes:

-  No primeiro Fiquem Qom a Qultura, eu fiko komo Brazzil, o Grande e o Pequeno Alberto ironizam sobre si o estado do ser. E se um mija e caga no outro, este, exerce a cidadania encobrindo a miséria do mundo com jornais culturais.
Alberto Pimenta liquida magistralmente esse «desejo» poético de querer ser um outro, Rimbaud, e como escreve Carlos Nogueira in A Sátira na Poesia Portuguesa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2011 «construindo mundo singulares, únicos, bizarros, dá-nos a ver, num jogo fértil em analogias, mundos que afinal são os nossos» sem ceder «a qualquer forma de facilidade ou indulgência, nem apresenta ou insinua respostas lineares; de vocação polifágica, questiona as rotinas, as intemperanças da sentimentalidade e do conformismo, os consensos estéticos que não deixam descobrir novos ângulos no real, os excessos dos saberes e dos poderes instituídos».
-  No segundo,  3 Dias com Alberto Pimenta, Alberto Pimenta está no Paraíso e narra, durante três dias, ora por fora, ora por dentro, as voltas dadas no túmulo, Portugal, e das suas línguas. Duas. Uma erudita, outra popular. Entrelaça-as libidinosamente na garganta funda do estado poético. O estado dum país de poetas que se dá ao trabalho de vilipendiar com um «riso de uma inteligência aberta, perscrutante e corrosiva» Carlos Nogueira.
Alberto Pimenta psicanaliza-se durante o mover do seu discurso no útero, no sexo, no corpo da mãe fálica que não pára de escrever, a dormir, a sonhar acordado ou a ler, com requintes de talhante, a sua obra «Morreu. Eu deitei-lhe mau-olhado. Quando ela saiu do seu canto. Foi sem querer, mas isso não atenua a culpa. Aos olhos do diabo, isso não atenua a culpa. À semelhança de todas as forças de segurança e de todas as enfermarias de hospitais psiquiátricos, o diabo julga e executa segundo o que acha mais conveniente.» in A Divina Multi(co)media.
E o Discurso Sobre o Filho-da-Puta, Teorema, 1977? Enquanto não fizer parte oficial dos programas do Ciclo será lido como elogio fúnebre.

        A.  Dasilva O.

07 fevereiro, 2012

A Re«Volta» da editora Farândola

É com agrado que noticiamos
a reimpressão revistos e aumentados
dos "Comentários..." e " Prefácio..."
de Guy Debord. Disponível na livraria Utopia

01 fevereiro, 2012

A Carta da Corcunda para o Serralheiro (reproduzimos na integra a «carta» que Fernando Pessoa dizem que escreveu como Maria José.)



Senhor Antonio:
O senhor nunca ha de ver esta carta, nem eu hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa,
mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe  quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto á janella
quando o senhor passa para a officina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora
que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importancia na corcunda do primeiro andar da
casa amarella, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquella
rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ella mas não tenho ciumes de si porque não tenho
direito a ter nada, nem mesmo ciumes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser
outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e fallar comsigo ainda que o senhor
me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecel-o de fallar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o
senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguem que gostasse de mim como se gosta das pessoas
que teem o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de
mim, e tambem tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguem.
Eu gostava de morrer depois de lhe fallar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras
de lhe fallar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se
o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é
absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são
más, mas eu nunca quiz mal a ninguem. Alem d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da
doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove annos e nunca sei para que é que cheguei a ter
tanta edade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda,
que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu
nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vae ler isto, e mesmo que lesse
nem sabia que era consigo e não ligava importancia em qualquer caso, mas gostaria que
pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janella, e ter mãe e irmãs que gostam da
gente mas sem ninguem que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a familia, e o que
faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como
eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a officina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui
defronte da janella, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janella, e viu-me a rir e riu tambem para mim, e essa foi a unica vez que o
senhor esteve a sós commigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua
quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e
eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um
estrado para poder estar á altura da janella. Passo todo o dia a ver illustrações e revistas de
modas que emprestam á minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me
perguntam como era aquella saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de
Inglaterra, eu ás vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem
ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda
por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguem
julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é
que estive distrahida.
Ainda me lembro d’aquelle dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não
era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia
que parecia o proprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como
nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ella mas
com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o
que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janella, mas é que ainda por cima tenho uma
especie de rheumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse
paralytica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a
aturar-me e a ter que me acceitar que o senhor não imagina.
Eu ás vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janella abaixo, mas eu que
figura teria a cahir da janella? Até quem me visse cahir ria e a janella é tam baixa que eu nem
morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca,
com as pernas á vela e a corcunda a sahir pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter
nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de
ser - e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguem.
Eu estou á janella todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de
vida e gosar e fallar a esta e áquella, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou
aqui á janella por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saude o que é a gente ter nascido e não ser
gente, e ver nos jornaes o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o
outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e teem baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos medicos, e outros partem para as suas casas
aqui e alli, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos
assignados por outros e retratos e annuncios com  os nomes dos homens que vão comprar as
modas ao estrangeiro, tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que
ficou no parapeito da janella de limpar o signal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por
causa da agua.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu
gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que
pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor
me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe fallou uma vez, que lhe fallou torto porque o senhor se metteu
com ella na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe
quero mentir, senti inveja porque metter-se alguém comnosco é a gente ser mulher, e eu não sou
mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma especie de gente que
está para aqui a encher o vão da janella e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.
O Antonio (é o mesmo nome que o seu, mas que differença!) o Antonio da officina de automoveis
disse uma vez a meu pae que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não ha
direito a viver, que quem não trabalha não come e não ha direito a haver quem não trabalhe. E eu
pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janella com toda a gente a mexerse de um lado para o outro, sem ser paralytica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem
gosta, e depois poderia produzir á vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no
peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu
desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para
não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Ahi tem e estou a chorar.
Maria José