01 abril, 2012
Ontem em Coimbra foi cá um Fuck You à lá Luiz Pacheco, pois não houve lançamento da Piolho 8. As nossas desculpas mas não foi possível fazê-lo com o mínima dignidade e decidimos abandonar o local SARRAGALLA , RUA ANTONIO AUGUSTO GONÇALVES Nº 27 - 1º. Aconselhamos, no entanto a visita à sala onde se encontra o «retrato-escultura» de Meireles de Pinho / Luís Melo Ferreira (fotos de António S Oliveira em baixo). Em breve invadiremos coimbra, nós e novecentos Otelos
30 março, 2012
Estamos todos de parabéns e a Piolho 9, a Porno, está fechada e em revisão de texto. mais informações dentro de momentos
Estamos todos de parabéns pelo facto de estarem incluídos 7 poemas de 7 poetas (publicados na PIOLHO nº 6) no RESUMO deste ano.
Os sete poetas:
- António Barahona
- Fernando Guerreiro
- Golgona Anghel (falta a referência à PIOLHO no índice, o poema foi posteriormente publicado na revista CRIATURA).
- Luís Manuel Gaspar
- Rui Miguel Ribeiro
- Rui Pires Cabral
- Vitor Nogueira
28 março, 2012
27 de Março 2012, dia mundial de Teatro
27 de Março 2012,
dia mundial de Teatro
PIPOCAS
Mãe de Bragança,
no centro do palco do Teatro Nacional Dona Maria,
come pipocas dum
enorme pote:
O teatro isto, o
teatro aquilo…
Uma corja de
parasitas, fizeste bem, meu filho!
És um orgulho
nacional!! Não te importes se não és
compreendido
Olha pela tua
vida, não sejas burro, não andei a descontar prá Caixa
para esses chulos
e coveiros da Santa Madre Igreja
Joselito não me
estás a ouvir-me? Onde páras?
Não me deixes
aqui sozinha que ainda
sou violada por
esses castrardos,
arrota e peida-se, Zélito meu querido?!
FJViegas
Então mamá
prometeu que
me deixava
trabalhar?!
Mãe
Respeita-me que
sou tua mãe, que fazes amor,
queres ajuda?
FJViegas
Estou a ajudar a
fazer a cama ao Sidónio
Mãe
Em casa nunca a fizeste,
porquê agora que és ministro?
Arranja alguém do rendimento mínimo
e traz-me mais
pipocas e liga a televisão
FJViegas
Você não está a
exagerar nas pipocas!?
Mãe
Estou com
desejos, arrota e peida-se, não
ouviste na rádio
quando vínhamos o
artista unido? Faz muito bem à
oxidação
Trezentos por
cento, melhor que a fruta
24 março, 2012
e de hoje a oito estaremos com as Piolho na Grandiosa Exposição ~ SARRAGALLA ~ Coimbra ~ sábado 31 Março 22:00 ~
PIOLHO 8 num lançamento informal
Grandiosa Exposição ~ SARRAGALLA ~ Coimbra ~ sábado 31 Março 22:00 ~Caros AmigosOs famosos PESCADAS mudaram de ramo. Lojistas em 2011 na Inter|Zona, são agora pacatos locatários de um T5.O T5 é na RUA ANTONIO AUGUSTO GONÇALVES Nº 27 - 1º Coimbra[ na margem esquerda, logo a seguir ao Casino da Urca [PUB], com vista para o Portugal dos Pequenitos [PUB] e para o Convento de Santa Clara-a-Velha [PUB], a mesma rua da Galeria de Santa Clara [PUB]De Março a Julho vamos realizar 7 Exposições, todas baseadas no livro de Alexander Moszkowski (consulta Google :), As Ilhas da Sabedoria, publicado em 1922 no interlúdio efervescente da República de Weimar.A PRIMEIRA EXPOSIÇÃO é já no sábado, 31 Março, às 22:00, a Ilha de SARRAGALLA,["a ilha mais desenvolvida do arquipélago, a sua recente expansão industrial resulta de uma produção em constante crescimento e de uma utilização perfeita do tempo de trabalho" (...)"a economia responde assaz bem às leis da oferta e da procura, as reivindicações e as greves desapareceram por si sós"]A coisa promete, a entrada é livre, com direito a Folha de Sala.
23 março, 2012
22 março, 2012
21 de Março 2012, dia da Poesia
21 de Março 2012, dia da Poesia
Volteava-me no vale dos lenções
deste perdido
pilhado e ocupado país
outrora país de
marinheiros e de poetas
entre ais e lais de quem na vida
tenta usufruir as
suas pequenas
coisas quando o
amigo Gaspar
me telefona que
estavam ele e a sua equipa
como manda a lei
à minha porta
afim de me penhorar os bens
Um momento e acendo a vela
A musa e tusa já tinham abandonado
o leito de morte
apago a vela e retiro as enciclopédias
que substituem parte do vido
da janela o sol enche-me de tesão e lá
vou eu
abrir a porta e o
amigo Gaspar entra todo sorridente
à frente dum
grande elenco peço desculpa por estar
apenas com um monte de apontamentos a tapar
a minha
privacidade sorriem compreensivos e também
pedem desculpa
mas ninguém está acima da lei
Assim seja concordo eu no tempo da outra
senhora
apareciam ao
romper do dia tal como a morte
A liberal ditadura trá-los à hora do
almoço
Sou poeta estava naturalmente a dormir
Um dos estados a que o cidadão-parasita
canoniza quem
lhes alimenta o espirito
O outro estado é o de sonhar acordado
Mas o que é que se passa afinal
se me querem
oferecer algum prémio
recuso como sempre ironista
Estamos aqui a fim de lhe consfiscar
os bens é esta a
sua casa não respondo
É esta e afasto os apontamentos querem o
meu
fígado os pulmões
o coração um policia mais zeloso
aponta com
gravidade a sua autoridade
e pedem os meus
documentos que penam
sobre as várias
edições da Constituição
Calçam as luvas e observam os documentos
e perguntam-me há
quanto tempo vivo nesta ilha a céu aberto
Desde que me conheço
que vivo em Utopia o amigo Gaspar
pede desculpa que
tudo não passou de um mal entendido
Não percebo resmungo você foi confudido
com outra pessoa
Acontece muito aos poetas de qualquer
forma fica informado
que esta ilha vai
ser vendida em hasta pública
Concordo plenamente nenhum homem é uma ilha
e volto para o
vale dos lençóis
assim como a musa
e a tusa
A. Dasilva O.
16 março, 2012
Piolho, revista de poesia, número 8, duplo lançamento (informal), sem porto de honra nem presença de rui rio. No dia 24 deste mês, pelas 17h, no espaço-livraria Estratégias Criativas, rua das oliveiras, 155-159, porto; e uma semana depois, dia 31, em Coimbra, pela mesma hora ou mais cedo, Grupo Pescadas na Rua ANTONIO AUGUSTO GONÇALVES Nº 27 - 1º, 3000 COIMBRA . Obrigatório, serão aumentados os impostos a quem não comparecer
09 março, 2012
O PROBLEMA DO FRANGO ATRAVESSAR A RUA, SEGUNDO A OPINIÃO DE ILUSTRES PENSADORES DO PASSADO E DO PRESENTE

O PROBLEMA DO FRANGO ATRAVESSAR A RUA, SEGUNDO A OPINIÃO DE ILUSTRES PENSADORES DO PASSADO E DO PRESENTE Professora Primária
"Porque o frango queria chegar ao outro lado da rua."
Criança
"Porque sim."
Platão
"Porque queria alcançar o Bem."
Aristóteles
"Porque é da natureza do frango atravessar a rua."
Descartes
"O frango pensou antes de atravessar a rua, logo, existe."
Rousseau
"O frango por natureza é bom; a sociedade é que o corrompe e o leva atravessar a rua."
Freud
"A preocupação com o facto de o frango ter atravessado a rua é um sintoma de insegurança sexual."
Darwin
"Ao longo dos tempos, os frangos vêm sendo seleccionados de forma natural, de modo que, actualmente, a sua evolução genética fê-los
dotados da capacidade de cruzar a rua."
Einstein
"Se o frango atravessou a rua ou se a rua se moveu em direcção ao frango, depende do ponto de vista... Tudo é relativo."
Martin Luther King
"Eu tive um sonho. Vi um mundo no qual todos os frangos livres podem cruzar a rua sem que sejam questionados os seus motivos. O frango
sonhou."
George W. Bush
"Sabemos que o frango atravessou a rua para poder dispor do seu arsenal de armas de destruição massiça. Por isso tivemos de eliminar o
frango."
Cavaco Silva
"Porque é que atravessou a rua, não é importante. O que o país precisa de saber é que, comigo, o frango vai dispor de uma conjuntura
favorável. Não colocarei entraves para o frango atravessar a rua."
José Sócrates
"O meu governo foi o que construiu mais passadeiras para frangos. Quando for reeleito, vou construir galinheiros de cada lado da rua
para os frangos não terem de a atravessar."
Mário Soares
"Já disse ao frango para desistir de atravessar a rua! Eu é que vou atravessar! Não vou desistir porque sei que os portugueses querem que
eu atravesse outra vez a rua!!!"
Manuel Alegre
"O frango é livre, é lindo, uma coisa assim... com penas! Ele atravessou, atravessa e atravessará a rua, porque o vento cala a
desgraça, o vento nada lhe diz!"
Jerónimo de Sousa
"A culpa é das elites dominantes, imperialistas e burguesas que pretendem dominar os frangos, usurpar os seus direitos e aniquilar a
sua capacidade de atravessar a rua, na conquista de um mundo socialista melhor e mais justo!"
Francisco Louçã
"Porque é preciso dizer olhos nos olhos que só por uma questão racista o frango necessita de atravessar a rua para o outro lado. É uma
mesquinhice obrigar o frango a atravessar a rua!"
Valentim Loureiro
"Desafio alguém a provar que o frango atravessou a rua. É mentira...!!! É tudo mentira!!!"
Paulo Bento
"O frango atravessou a rua tranquilamente... Era isso que esperávamos e foi isso que aconteceu, com muita naturalidade. O frango ainda é
muito jovem e estas coisas pagam-se caro, com tranquilidade!!!"
Zézé Camarinha
"Porque foi ao engate! É um verdadeiro macho, viu uma franga camone do outro lado da rua e não perdoou. Deu um créu nela!!!"
E a Loira Lili Caneças...
"Porque se queria juntar aos outros mamíferos."
|
07 março, 2012
24 fevereiro, 2012
CÁ ESTOU EU À SOMBRA NESTE INVERNO PRIMAVERIL, PIOLHO 8
«Os moradores ligam muitas vezes uns para os outros a perguntar coisas. A perguntar onde está ... Está do outro lado sentado no Piolho.» Rui Costa
Ana Ulisses(ilustrações), António Ramos Rosa, Ricardo Álvaro, Alexandra Antunes, Catarina Ulisses, José Luís Bértolo, Luís Serra, Miguel Sá Marques, Pedro Águas, Marta Peixoto, Oliveira Martins Roxo, Ricardo Marques, José Guardado Moreira, Raul Simões Pinto, Manuel Filipe, Pedro Calcoen, Sylvia Beirute, Cristina Aguiar, Sandra Filipe , rosa azevedo, Luís Pedroso, Rui Almeida, Luís Ferreira, José Emílio-Nelson, António Salvador, Teixeira Moita, Hugo Pinto Santos, A. Dasilva O.,Pedro S. Martins, António S. Oliveira e
John Berryman
fazem mais ou menos por esta desordem este
número
o oitavo fevereiro 2012
Coordenado por Sílvia C. Silva, Ricardo Álvaro, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
15 fevereiro, 2012
Sexta em Braga "Pelas 21h30, o Cineclube Aurélio da Paz dos Reis , também na Casa do Professor, no ciclo de homenagem a Edgar Pêra: dois filmes sobre e com Alberto Pimenta, eis a Carta de Sala
José Alberto Resende de Figueiredo Pimenta, cidadão nacional
nº 727697, natural do Porto, soldado sem instrução incorporado na reserva
territorial, licenciado em filologia alemã pela universidade de Coimbra, esteve
exposto, no dia 31 de Julho de 1977, entre as 16 e as 18 horas, numa jaula do
Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico de Lisboa.
Nunca mais parou de ser perseguido pelo filho da puta do Homo
Sapiens como me confessou numa entrevista para a revista Última Geração 4/5 maio/Junho de 1987 «Acho que ninguém
quer morrer sozinho. Ser morto pode dar por instantes a ilusão da imortalidade.
Os heróis correm atrás disso duma maneira, os artistas doutra. Cada herói e
cada artista cria actos e palavras para todos os gostos, cria modelos. Estes
modelos são uma doença incurável, um autêntico cancro do cérebro. A maioria dos
artistas não faz mais que fomentar cancros do cérebro. Eu inclino-me mais para
o género SIDA, acho mais catita «limpar» as defesas do parceiro que engordá-lo
com tumores. A maioria da arte que se faz hoje é um tumor» e Alberto Pimenta
tem cumprido essa Epopeida poética, em caixa alta, «porque é bom de ver que se
trata: o mundo transferiu para o écran o que costumava mostrar cifrado num
livro, letra a letra. Foi uma conquista dos analfabetos, e ainda bem» ele
também conquistou e conquista jogando com as armas (defesas?) do adversário «a
minha cara incomoda tanto filho da puta, que só isso já é um regalo» umA Divina Multi(co)media, &Etc, 1991, bêbada
de Metamorfoses do Video, José Ribeiro
editor, 1986 o que ao longo do tempo Alberto Pimenta tem
corroído com magia as máscaras e os rostos do logos e toda a sua arte de matar: «Mas mais e melhor ainda mata o
museu, e a biblioteca em certos casos. As obras estão vigiadas como
prisioneiros. Só podem visitar-se sob tutela e a certas horas e dias.» in A Magia
que Tira os Pecados do Mundo, 1995, Edições Cotovia.
E aqui se prova e se
comprova: uma vida inteira a bater no mesmo teclado «Essa é a magia, guardada
em 22 letras e seus traços de união» do eterno retorno à sua terra/jaula/livro
entre vómitos e náuseas e suores de quem não sai do sua catártica e ética
tarefa «Eu, Alberto Pimenta, nasci cerca de 750 anos depois de Alberto Magno, o
qual conhecia 4 variedades de rosas (mais duas que eu), e ainda outras magias
apreciáveis, que deixou registadas no Grande
e no Pequeno Alberto. E algum que fosse só Alberto, sem ser grande nem pequeno, não havia? Parece impossível,
mas a história não deixa: todos hão-de ser uma daquelas duas coisas. Essa foi a
grande descoberta da minha vida, foi como a descoberta de Copérnico: quem dá as
dimensões é a História, e a plebe erudita tira por aí as medidas para fazer os
fatos. Hoje vou tirar eu as medidas, com outras dimensões, se V.Exas não se
importam.»
Moral da História: dos
Poetas não reza a História.
É nesse e
esse o inferno que Edgar Pêra narra, escreve e disseca Alberto Pimenta segundo
as suas próprias palavras.
Foi nas Conferências do Inferno, segunda edição,
1994, Última Geração 22,23 e 24, que se encontraram e que vieram a dar
origem, em encontros futuros, a estes dois filmes:
- No primeiro Fiquem Qom a Qultura, eu fiko komo Brazzil,
o Grande e o Pequeno Alberto ironizam sobre si o estado do ser. E se um mija e
caga no outro, este, exerce a cidadania encobrindo a miséria do mundo com
jornais culturais.
Alberto
Pimenta liquida magistralmente esse «desejo» poético de querer ser um outro, Rimbaud, e como escreve Carlos Nogueira in A Sátira na Poesia Portuguesa, Fundação
Calouste Gulbenkian, 2011 «construindo mundo singulares, únicos, bizarros,
dá-nos a ver, num jogo fértil em analogias, mundos que afinal são os nossos»
sem ceder «a qualquer forma de facilidade ou indulgência, nem apresenta ou
insinua respostas lineares; de vocação polifágica, questiona as rotinas, as
intemperanças da sentimentalidade e do conformismo, os consensos estéticos que
não deixam descobrir novos ângulos no real, os excessos dos saberes e dos poderes
instituídos».
- No segundo,
3 Dias com Alberto Pimenta,
Alberto Pimenta está no Paraíso e narra, durante três dias, ora por fora, ora
por dentro, as voltas dadas no túmulo, Portugal, e das suas línguas. Duas. Uma
erudita, outra popular. Entrelaça-as libidinosamente na garganta funda do
estado poético. O estado dum país de poetas que se dá ao trabalho de
vilipendiar com um «riso de uma inteligência aberta, perscrutante e corrosiva»
Carlos Nogueira.
Alberto
Pimenta psicanaliza-se durante o mover do seu discurso no útero, no sexo, no
corpo da mãe fálica que não pára de escrever, a dormir, a sonhar acordado ou a
ler, com requintes de talhante, a sua obra «Morreu. Eu deitei-lhe mau-olhado.
Quando ela saiu do seu canto. Foi sem querer, mas isso não atenua a culpa. Aos
olhos do diabo, isso não atenua a culpa. À semelhança de todas as forças de
segurança e de todas as enfermarias de hospitais psiquiátricos, o diabo julga e
executa segundo o que acha mais conveniente.» in A Divina Multi(co)media.
E o Discurso Sobre o Filho-da-Puta, Teorema,
1977? Enquanto não fizer parte
oficial dos programas do Ciclo será lido como elogio fúnebre.
A. Dasilva O.
07 fevereiro, 2012
A Re«Volta» da editora Farândola
É com agrado que noticiamos
a reimpressão revistos e aumentados
dos "Comentários..." e " Prefácio..."
de Guy Debord. Disponível na livraria Utopia
a reimpressão revistos e aumentados
dos "Comentários..." e " Prefácio..."
de Guy Debord. Disponível na livraria Utopia
01 fevereiro, 2012
A Carta da Corcunda para o Serralheiro (reproduzimos na integra a «carta» que Fernando Pessoa dizem que escreveu como Maria José.)
Senhor Antonio:
O senhor nunca ha de ver esta carta, nem eu hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa,
mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto á janella
quando o senhor passa para a officina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora
que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importancia na corcunda do primeiro andar da
casa amarella, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquella
rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ella mas não tenho ciumes de si porque não tenho
direito a ter nada, nem mesmo ciumes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser
outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e fallar comsigo ainda que o senhor
me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecel-o de fallar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o
senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguem que gostasse de mim como se gosta das pessoas
que teem o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de
mim, e tambem tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguem.
Eu gostava de morrer depois de lhe fallar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras
de lhe fallar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se
o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é
absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são
más, mas eu nunca quiz mal a ninguem. Alem d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da
doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove annos e nunca sei para que é que cheguei a ter
tanta edade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda,
que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu
nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vae ler isto, e mesmo que lesse
nem sabia que era consigo e não ligava importancia em qualquer caso, mas gostaria que
pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janella, e ter mãe e irmãs que gostam da
gente mas sem ninguem que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a familia, e o que
faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como
eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a officina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui
defronte da janella, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janella, e viu-me a rir e riu tambem para mim, e essa foi a unica vez que o
senhor esteve a sós commigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua
quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e
eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um
estrado para poder estar á altura da janella. Passo todo o dia a ver illustrações e revistas de
modas que emprestam á minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me
perguntam como era aquella saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de
Inglaterra, eu ás vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem
ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda
por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguem
julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é
que estive distrahida.
Ainda me lembro d’aquelle dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não
era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia
que parecia o proprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como
nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ella mas
com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o
que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janella, mas é que ainda por cima tenho uma
especie de rheumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse
paralytica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a
aturar-me e a ter que me acceitar que o senhor não imagina.
Eu ás vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janella abaixo, mas eu que
figura teria a cahir da janella? Até quem me visse cahir ria e a janella é tam baixa que eu nem
morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca,
com as pernas á vela e a corcunda a sahir pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter
nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de
ser - e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta?
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguem.
Eu estou á janella todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de
vida e gosar e fallar a esta e áquella, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou
aqui á janella por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saude o que é a gente ter nascido e não ser
gente, e ver nos jornaes o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o
outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e teem baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos medicos, e outros partem para as suas casas
aqui e alli, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos
assignados por outros e retratos e annuncios com os nomes dos homens que vão comprar as
modas ao estrangeiro, tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que
ficou no parapeito da janella de limpar o signal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por
causa da agua.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu
gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que
pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor
me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe fallou uma vez, que lhe fallou torto porque o senhor se metteu
com ella na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe
quero mentir, senti inveja porque metter-se alguém comnosco é a gente ser mulher, e eu não sou
mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma especie de gente que
está para aqui a encher o vão da janella e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.
O Antonio (é o mesmo nome que o seu, mas que differença!) o Antonio da officina de automoveis
disse uma vez a meu pae que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não ha
direito a viver, que quem não trabalha não come e não ha direito a haver quem não trabalhe. E eu
pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janella com toda a gente a mexerse de um lado para o outro, sem ser paralytica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem
gosta, e depois poderia produzir á vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no
peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu
desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para
não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Ahi tem e estou a chorar.
Maria José
28 janeiro, 2012
20 janeiro, 2012
a Piolho 8 a caminho da tipografia
«Os moradores ligam muitas vezes uns para os outros a perguntar coisas. A perguntar onde está ... Está do outro lado do Atlântico sentado no Piolho.» Rui Costa
Ana Ulisses(ilustrações), António Ramos Rosa, Ricardo Álvaro, Alexandra Antunes, Catarina Ulisses, José Luís Bértolo, Luís Serra, Miguel Sá Marques, Pedro Águas, Marta Peixoto, Oliveira Martins Roxo, Ricardo Marques, José Guardado Moreira, Raul Simões Pinto, Manuel Filipe, Pedro Calcoen, Sylvia Beirute, Cristina Aguiar, Sandra Filipe , rosa azevedo, Luís Pedroso, Rui Almeida, Luís Ferreira, José Emílio-Nelson, António Salvador, Teixeira Moita, Hugo Pinto Santos, A. Dasilva O.,Pedro S. Martins, António S. Oliveira e
John Berryman
fazem mais ou menos por esta desordem este
número
o oitavo fevereiro 2012
Coordenado por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho (capa e arranjo gráfico),Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.
hoje, 20 de Janeiro de 2012, dia do funeral do poeta Rui Costa
Texto escrito, cobardemente, e colocado por Jorge Reis-Sá no seu Facebook
"Sempre estranhei o Rui. O seu discurso de agradecimento do Prémio Daniel Faria foi como ele era: "o Daniel Faria estará neste momento honrado por me ter como primeiro vencedor". Afastámo-nos naturalmente, dado o meu estranhamento da sua personalidade. Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi."
Jorge Reis-Sá tu não és editor, és um chulo e deverias ser enterrado vivo, mas isso não é possível
A. Dasilva O.
Subscrever:
Mensagens (Atom)













.jpg)


